A eleição de Carlos Eduardo Xavier, conhecido como Cadu de Lula, para o governo do Rio Grande do Norte representa a ascensão de um profissional de carreira da administração pública ao principal cargo político do Estado. Aos 48 anos, o engenheiro de computação e auditor fiscal conquistou seu primeiro mandato eletivo após uma trajetória marcada pela atuação na gestão tributária, no planejamento financeiro e na articulação institucional.
Candidato pelo Partido dos Trabalhadores (PT), Cadu venceu o segundo turno das eleições de 25 de outubro de 2026 com 50,77% dos votos válidos, derrotando Allyson Bezerra, do União Brasil, que recebeu 49,23%. A vitória, construída após o adversário terminar o primeiro turno na liderança, assegurou a continuidade do grupo político da governadora Fátima Bezerra à frente do Executivo estadual.
Mais do que uma mudança de nomes, a transição apresenta um desafio administrativo: transformar a experiência acumulada na condução das finanças públicas em uma estratégia de governo capaz de ampliar investimentos, melhorar serviços essenciais e impulsionar o desenvolvimento econômico do Rio Grande do Norte.
Uma trajetória construída na administração pública
Natural do Rio de Janeiro, Carlos Eduardo Xavier mudou-se ainda criança para o Rio Grande do Norte, onde construiu sua formação acadêmica e profissional. Graduou-se em Engenharia de Computação pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), instituição na qual também concluiu mestrado em Engenharia de Produção.
Sua carreira no serviço público começou em 2005, quando ingressou como auditor fiscal do Tesouro Estadual. Ao longo dos anos, exerceu funções técnicas na estrutura de fiscalização tributária, acumulando experiência na administração de receitas, no acompanhamento das atividades econômicas e no funcionamento da máquina pública.
A formação técnica e o conhecimento da estrutura fiscal norte-riograndense contribuíram para sua ascensão aos principais cargos da administração financeira estadual. Em janeiro de 2019, no início do primeiro mandato da governadora Fátima Bezerra, Cadu assumiu a Secretaria de Tributação.
Em 2023, com a reorganização administrativa que reuniu as áreas de Tributação e Finanças, passou a comandar a Secretaria de Estado da Fazenda. A nova estrutura ampliou suas responsabilidades, concentrando sob sua gestão instrumentos fundamentais para a arrecadação, o planejamento financeiro, a execução orçamentária e a sustentabilidade das contas públicas.
Sua atuação também ultrapassou os limites estaduais. Entre 2023 e 2025, presidiu o Comitê Nacional de Secretários de Fazenda dos Estados e do Distrito Federal (Comsefaz), entidade que desempenhou papel relevante nas discussões sobre a reforma tributária brasileira.
Nesse período, participou da articulação entre os governos estaduais, o Congresso Nacional e o governo federal, especialmente nas negociações relacionadas à reforma da tributação sobre o consumo, à autonomia financeira dos entes federativos e à repartição de receitas.
A experiência proporcionou a Cadu uma visão abrangente dos desafios do federalismo fiscal brasileiro, incluindo as dificuldades enfrentadas pelos estados para equilibrar despesas obrigatórias, financiar políticas públicas e preservar a capacidade de investimento.
Em 2026, deixou a Secretaria da Fazenda para disputar sua primeira eleição. A candidatura reuniu o apoio da governadora Fátima Bezerra, do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e dos partidos integrantes da coligação Time que Cuida. Sua companheira de chapa, Larissa Rosado, do PSB, foi eleita vice-governadora.
Ao adotar o nome eleitoral Cadu de Lula, reforçou sua identificação com o projeto político nacional do presidente e apresentou sua candidatura como uma proposta de continuidade administrativa, associada à abertura de um novo ciclo de desenvolvimento estadual.
A vitória nas urnas, entretanto, também lhe impõe uma mudança de perspectiva. Se anteriormente sua principal responsabilidade estava concentrada na gestão financeira, como governador precisará coordenar áreas distintas, negociar com o Legislativo, estabelecer prioridades e responder diretamente às demandas da população.
É nesse contexto que seu plano de governo ganha importância.
O programa de governo apresentado por Cadu Xavier, intitulado RN que cresce cuidando de gente, estabelece uma agenda para o período de 2027 a 2030, organizada em 13 eixos estratégicos e sustentada por três compromissos centrais: desenvolvimento que gera oportunidades, Estado que entrega e cuidado que transforma.
A proposta parte do princípio de que o crescimento econômico precisa estar associado à melhoria dos serviços públicos, à redução das desigualdades e à ampliação das oportunidades de trabalho e renda. Nesse modelo, a capacidade administrativa do Estado é considerada um instrumento essencial para transformar investimentos em resultados concretos.
A experiência de Cadu na Secretaria da Fazenda aparece como elemento de conexão entre sua trajetória profissional e as prioridades do programa. O documento defende que responsabilidade fiscal e compromisso social devem caminhar juntos, assegurando condições para o financiamento das políticas públicas e a realização de investimentos estruturantes.
O desafio será conciliar essas diretrizes com as limitações orçamentárias e as necessidades de um estado que apresenta diferenças significativas entre suas regiões.
Modernização administrativa e responsabilidade fiscal
Um dos principais eixos do plano é a construção de uma administração pública mais eficiente, transparente e orientada por resultados.
A proposta prevê o aperfeiçoamento dos mecanismos de planejamento, orçamento, execução, monitoramento e avaliação das políticas públicas. A intenção é integrar os diferentes órgãos estaduais, reduzir procedimentos burocráticos e ampliar a capacidade de resposta às demandas da sociedade.
A transformação digital ocupa posição estratégica nesse processo. O programa defende a ampliação dos serviços eletrônicos, a integração de bases de dados, a simplificação de processos administrativos e a utilização responsável de ferramentas de inteligência artificial.
A modernização deverá ser acompanhada por mecanismos de proteção de dados, segurança da informação, acessibilidade e supervisão humana.
Outro ponto relevante é a valorização dos servidores públicos, considerados agentes fundamentais para melhorar a qualidade dos serviços prestados à população. O plano propõe investimentos em capacitação, melhores condições de trabalho e fortalecimento da capacidade técnica dos órgãos estaduais.
Na área fiscal, Cadu pretende associar o equilíbrio das contas públicas à melhoria da qualidade do gasto. A proposta inclui aperfeiçoar a administração tributária, estruturar uma carteira de projetos prioritários, ampliar a captação de recursos e avaliar instrumentos como concessões, parcerias e operações de crédito.
A experiência acumulada na gestão fazendária poderá favorecer a implementação dessas medidas. Entretanto, a efetividade da estratégia dependerá da capacidade de estabelecer prioridades, controlar despesas e assegurar financiamento sustentável para as ações previstas.
Desenvolvimento econômico e valorização das potencialidades regionais
O desenvolvimento econômico constitui outro pilar do programa. A proposta busca aproveitar as vantagens competitivas do Rio Grande do Norte, especialmente nas áreas de energias renováveis, agricultura, fruticultura, mineração, turismo, indústria, comércio e serviços.
O estado possui posição de destaque na geração de energia eólica e apresenta potencial para ampliar sua participação nas cadeias produtivas relacionadas à energia solar, ao hidrogênio de baixo carbono e às novas tecnologias industriais.
O plano defende que essas atividades não sejam tratadas apenas como fontes de investimentos, mas também como oportunidades para gerar empregos qualificados, desenvolver fornecedores locais e agregar valor à produção estadual.
A estratégia inclui aproximar empresas, universidades, instituições de pesquisa e centros de formação profissional, criando condições para ampliar a inovação e a competitividade da economia potiguar.
Na agricultura, o programa destaca a importância da produção familiar, da fruticultura irrigada, do cooperativismo e da agroindústria. A intenção é fortalecer o acesso ao crédito, à assistência técnica, à tecnologia e aos mercados consumidores.
O turismo também recebe atenção especial. Além do tradicional segmento de sol e mar, o documento propõe estimular atividades ligadas à cultura, à gastronomia, à natureza, ao patrimônio histórico e ao turismo comunitário, buscando ampliar a permanência dos visitantes e distribuir os benefícios econômicos entre mais municípios.
A proposta econômica procura estabelecer uma relação direta entre investimentos produtivos e desenvolvimento regional, reduzindo a concentração de oportunidades na capital e em sua região metropolitana.
Educação, ciência e qualificação profissional
Na educação, o programa estabelece como prioridade a melhoria da aprendizagem, a permanência dos estudantes na escola e a ampliação das oportunidades de formação.
Entre as diretrizes estão o fortalecimento da alfabetização, a expansão da educação integral, a valorização dos profissionais do magistério e a melhoria da infraestrutura das unidades escolares.
O documento também destaca a necessidade de assegurar transporte, alimentação, conectividade, acessibilidade e condições adequadas para o desenvolvimento das atividades pedagógicas.
A formação técnica e profissional deverá ser articulada às necessidades econômicas das diferentes regiões. A proposta considera que setores como energias renováveis, tecnologia, turismo, indústria e agropecuária exigirão trabalhadores com novas competências.
Nesse contexto, o fortalecimento da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (UERN) e da Fundação de Amparo e Promoção da Ciência, Tecnologia e Inovação do Rio Grande do Norte (FAPERN) aparece como instrumento para estimular a pesquisa, a inovação e a formação de profissionais.
A política educacional pretende estabelecer uma conexão entre aprendizagem,
desenvolvimento econômico e oportunidades para os jovens, contribuindo para reduzir desigualdades e ampliar as possibilidades de inserção no mercado de trabalho.
Saúde pública e regionalização do atendimento
Na saúde, o plano de Cadu Xavier estabelece como objetivo fortalecer o Sistema Único de Saúde (SUS), ampliar o acesso aos serviços e reduzir o tempo de espera por consultas, exames, procedimentos especializados e cirurgias.
A regionalização do atendimento é apresentada como uma das principais estratégias para aproximar os serviços da população, especialmente dos moradores do interior.
O programa defende maior integração entre atenção básica, atendimento especializado, hospitais, serviços de urgência e emergência e estruturas de saúde mental.
Também prevê investimentos em infraestrutura hospitalar, telessaúde, qualificação profissional e aperfeiçoamento dos mecanismos de regulação.
A proposta considera que o desempenho da política de saúde não deve ser avaliado apenas pelo número de atendimentos realizados, mas também pela capacidade de assegurar diagnóstico, tratamento e acompanhamento adequados.
Para isso, o governo pretende fortalecer a cooperação com os municípios e ampliar a articulação com os programas federais de financiamento e expansão da rede pública.
A redução das filas, a distribuição regional dos serviços e a sustentabilidade do custeio estarão entre os principais desafios administrativos da futura gestão.
Infraestrutura e integração territorial
A infraestrutura aparece no programa como condição essencial para ampliar a competitividade econômica e melhorar a qualidade de vida da população.
O plano prevê uma estratégia integrada de investimentos em rodovias, portos, aeroportos, mobilidade, saneamento, sistemas hídricos e conectividade digital.
A recuperação e a modernização da malha rodoviária são consideradas fundamentais para facilitar o escoamento da produção, reduzir custos logísticos e fortalecer a integração entre as regiões.
A infraestrutura portuária e aeroportuária também integra a proposta, especialmente pela importância desses equipamentos para o comércio, o turismo e as atividades industriais.
No campo da segurança hídrica, o programa reconhece a necessidade de ampliar a disponibilidade de água, melhorar os sistemas de abastecimento e fortalecer a capacidade de adaptação aos períodos de estiagem.
A articulação com o governo federal, particularmente por meio de programas de infraestrutura e desenvolvimento regional, é apresentada como instrumento para viabilizar investimentos de maior porte.
Segurança pública com inteligência e prevenção
A segurança pública ocupa espaço relevante no programa, que propõe combinar valorização profissional, integração institucional, tecnologia e prevenção da violência.
A estratégia prevê fortalecer a capacidade de investigação, aperfeiçoar os sistemas de informação e ampliar a cooperação entre os diferentes órgãos responsáveis pela segurança.
O documento também defende políticas preventivas articuladas à educação, à assistência social, à cultura, ao esporte e à geração de oportunidades para a juventude.
A proteção da vida é apresentada como princípio orientador da atuação estatal, associando o enfrentamento à criminalidade à garantia de direitos e à presença do poder público nos territórios.
A implementação dessa agenda exigirá investimentos em pessoal, equipamentos, inteligência e gestão, além de mecanismos de avaliação capazes de identificar os resultados das políticas adotadas.
Proteção social, mulheres e juventude
A dimensão social constitui um dos elementos centrais do programa de governo.
Na assistência social, Cadu propõe fortalecer o Sistema Único de Assistência Social (SUAS), ampliar a cooperação com os municípios e integrar as políticas de combate à fome, segurança alimentar, inclusão produtiva e proteção às famílias em situação de vulnerabilidade.
O plano também contempla ações voltadas às pessoas idosas, pessoas com deficiência, crianças, adolescentes e grupos que enfrentam dificuldades de acesso aos serviços públicos.
Para as mulheres, a proposta estabelece uma agenda de autonomia econômica, qualificação profissional, geração de renda, saúde integral e enfrentamento à violência.
O programa reconhece ainda a importância de políticas públicas de cuidado, buscando reduzir a sobrecarga que tradicionalmente recai sobre as mulheres nas responsabilidades familiares.
Em relação à juventude, as prioridades incluem formação profissional, acesso ao primeiro emprego, empreendedorismo, cultura, esporte, tecnologia e saúde mental.
A promoção da igualdade racial, o reconhecimento dos direitos dos povos indígenas e comunidades tradicionais e o combate à discriminação também integram a proposta.
Cultura, esporte e lazer são tratados como direitos sociais e instrumentos de desenvolvimento, com atenção à valorização das identidades regionais e da economia criativa.
Sustentabilidade e transição energética
A agenda ambiental do futuro governo está diretamente relacionada à estratégia de desenvolvimento econômico.
O plano pretende aproveitar o potencial do Rio Grande do Norte na geração de energias renováveis, incentivando atividades produtivas associadas à economia de baixo carbono.
A proposta inclui fortalecer a proteção da Caatinga e do litoral, ampliar a segurança hídrica, melhorar as condições de saneamento e estimular práticas produtivas ambientalmente sustentáveis.
Também prevê políticas de adaptação às mudanças climáticas, considerando os impactos das secas, das alterações nos regimes de chuvas e de outros eventos ambientais sobre as atividades econômicas e a vida das comunidades.
O objetivo é combinar atração de investimentos, geração de empregos e preservação ambiental, reconhecendo a sustentabilidade como componente permanente do planejamento público.
Os desafios de transformar planejamento em resultados
O programa apresentado por Cadu Xavier reúne uma agenda abrangente, com propostas que alcançam praticamente todas as áreas da administração estadual.
Sua principal característica é a tentativa de integrar desenvolvimento econômico, eficiência administrativa e proteção social em uma mesma estratégia de governo.
O documento atribui especial importância à capacidade de implementação das políticas públicas, defendendo que os resultados sejam avaliados pelos efeitos concretos sobre a população.
Essa orientação dialoga diretamente com a trajetória profissional do governador eleito, cuja experiência está associada ao planejamento financeiro, à organização administrativa e à gestão dos recursos públicos.
Entretanto, a passagem da administração fazendária para o comando do Executivo estadual exigirá competências adicionais, especialmente na coordenação política, na negociação institucional e na definição de prioridades diante de demandas concorrentes.
A composição de uma equipe tecnicamente qualificada, o relacionamento com a Assembleia Legislativa, a cooperação com os municípios e a capacidade de mobilizar recursos federais serão fatores relevantes para a execução do programa.
Outro desafio será transformar diretrizes amplas em projetos com metas mensuráveis, cronogramas, estimativas de custos e fontes de financiamento claramente definidas. Embora o plano estabeleça objetivos e resultados esperados, muitas de suas propostas ainda dependerão de detalhamento operacional.
A administração estadual também precisará enfrentar questões estruturais relacionadas ao equilíbrio fiscal, à qualidade dos serviços públicos, à infraestrutura regional e às desigualdades socioeconômicas.
Nesse cenário, a experiência de Cadu Xavier na gestão das finanças estaduais poderá representar uma vantagem para o planejamento e a organização das prioridades governamentais. Por outro lado, o desempenho de sua administração será medido pela capacidade de converter conhecimento técnico e articulação política em resultados efetivos.
Ao assumir o governo do Rio Grande do Norte, Cadu levará para o centro das decisões uma trajetória construída predominantemente dentro da própria estrutura administrativa do Estado. Seu projeto combina continuidade institucional com a promessa de modernizar a gestão e ampliar as oportunidades econômicas e sociais.
O desafio dos próximos quatro anos será demonstrar que a experiência na condução das contas públicas pode servir de base para uma administração capaz de investir, executar políticas e responder às necessidades da população.
Para o Rio Grande do Norte, a nova gestão representará uma oportunidade de avaliar, na prática, a relação entre responsabilidade fiscal, capacidade administrativa e desenvolvimento social — três dimensões que estarão no centro do governo de Cadu Xavier.
