Uma trajetória entre a medicina e a política
Antônio Paulo de Oliveira Furlan, conhecido como Dr. Furlan, construiu sua trajetória profissional na medicina antes de ingressar na política. Nascido em San José, na Costa Rica, em 9 de julho de 1973, filho de brasileiros, mudou-se ainda bebê para o Brasil e cresceu em Belém, no Pará. Formou-se em Medicina pela Universidade Federal do Pará (UFPA) e especializou-se em cirurgia cardiovascular, área em que desenvolveu sua carreira profissional. A convite, mudou-se para o Amapá, onde passou a atuar na área de saúde.
Sua entrada na vida pública ocorreu no início de 2010. Em 2013, assumiu uma cadeira na Assembleia Legislativa do Amapá como suplente e, nas eleições de 2014, foi eleito deputado estadual. Exerceu o mandato até 2018, período em que ampliou sua atuação política e sua relação com as demandas da população amapaense.
O passo seguinte foi a disputa pela Prefeitura de Macapá. Eleito em 2020, Furlan assumiu a administração da capital com o desafio de conduzir políticas públicas em áreas como saúde, infraestrutura urbana, serviços essenciais e organização administrativa. Em 2024, foi reeleito com 85,08% dos votos válidos, resultado que consolidou sua força eleitoral na capital.
Na eleição para o Governo do Amapá, realizada em 4 de outubro de 2026, Furlan foi eleito no primeiro turno, pelo Partido Social Democrático (PSD), com 281.595 votos, equivalentes a 62,75% dos votos válidos. A vitória ampliou sua atuação política da esfera municipal para a estadual e o colocou diante de desafios que ultrapassam os limites de Macapá, envolvendo os 16 municípios amapaenses, as desigualdades territoriais e a necessidade de fortalecer a capacidade de execução do poder público.
Sua experiência como médico e ex-prefeito constitui a base de sua apresentação política: a defesa de uma administração próxima da população, com atenção à prestação de serviços e à realização de obras. A passagem para o governo estadual, entretanto, exigirá capacidade de coordenação regional, articulação com os municípios e planejamento de políticas públicas em escala mais ampla.
Um projeto de governo estruturado em três pilares
O Programa de Governo do Amapá para 2027–2030, intitulado Trabalhar para Transformar o Amapá, apresenta como diretriz central a transformação das potencialidades do Estado em desenvolvimento econômico e social. O documento organiza as propostas em três pilares: desenvolvimento das pessoas, desenvolvimento do território e desenvolvimento econômico e modernização da gestão pública.
A proposta parte do entendimento de que o crescimento estadual depende da combinação entre serviços públicos de qualidade, infraestrutura, geração de oportunidades, sustentabilidade ambiental e responsabilidade fiscal. O plano também enfatiza a cooperação entre Estado, municípios, União, iniciativa privada, universidades e sociedade civil.
Na prática, a agenda reúne desafios de diferentes dimensões: melhorar os indicadores educacionais, ampliar a capacidade de atendimento da rede de saúde, enfrentar a violência, superar gargalos logísticos, diversificar a economia e aperfeiçoar os instrumentos de planejamento e controle da administração pública.
Gestão por resultados e modernização administrativa
Um dos eixos transversais do programa é a adoção de uma gestão pública orientada por metas, indicadores e avaliação contínua. O documento prevê o fortalecimento do planejamento estratégico, o monitoramento das políticas públicas, a ampliação da transparência e o uso de evidências para orientar decisões.
A transformação digital aparece como instrumento para simplificar processos, integrar sistemas e facilitar o acesso da população aos serviços estaduais. O plano também propõe valorização dos servidores, melhoria das condições de trabalho e maior integração entre órgãos governamentais.
Nos primeiros 100 dias, a prioridade anunciada é realizar um diagnóstico administrativo, financeiro, fiscal e orçamentário do Estado, assegurar a continuidade dos serviços essenciais e retomar obras estruturantes. A partir desse levantamento, a proposta prevê encaminhar medidas de reforma administrativa e revisar os instrumentos de planejamento e orçamento para adequá-los às prioridades da nova gestão.
Esse conjunto de iniciativas será decisivo para transformar as diretrizes do programa em entregas concretas. A ampliação da capacidade de investimento dependerá da situação fiscal encontrada, da qualidade dos projetos, da articulação com outras esferas de governo e da capacidade de executar contratos e acompanhar resultados.
Saúde: ampliar o atendimento e reduzir as filas
A saúde ocupa posição de destaque no programa, em sintonia com a formação profissional do governador eleito. O diagnóstico apresentado identifica dificuldades na oferta de consultas especializadas, exames, cirurgias e procedimentos de média e alta complexidade, além da dependência do Tratamento Fora do Domicílio e da necessidade de modernizar a infraestrutura hospitalar.
Para enfrentar esses problemas, o plano propõe fortalecer a gestão estadual da rede assistencial, modernizar a Central Estadual de Regulação e implantar uma Fila Única Digital, que permita aos cidadãos acompanhar sua posição para consultas, exames e cirurgias. A ampliação da telemedicina, a integração dos prontuários eletrônicos e a modernização dos sistemas de informação também integram a agenda.
Entre as medidas específicas estão mutirões permanentes de cirurgias eletivas, a Carreta Estadual da Saúde Especializada, o programa Avança Coração, a Via Rápida do Câncer e a criação de um serviço de hemodiálise em Laranjal do Jari. O documento prevê ainda ações voltadas à saúde materno-infantil, à saúde mental, à reabilitação e ao atendimento de pessoas com transtornos do neurodesenvolvimento.
Outro objetivo é ampliar o acesso aos serviços nos municípios do interior, por meio de transporte sanitário terrestre, fluvial e aeromédico, além de fortalecer a atenção primária em cooperação com as prefeituras.
A efetividade dessas medidas dependerá não apenas da infraestrutura, mas também da contratação e fixação de profissionais, do financiamento contínuo, da integração entre os níveis de atendimento e da capacidade de reduzir o tempo de espera. Para a gestão estadual, o desafio será converter investimentos e reorganização administrativa em maior acesso e resolutividade para a população.
Educação: aprendizagem, valorização profissional e qualificação
O programa trata a educação como condição para o desenvolvimento de longo prazo. O documento destaca dificuldades nos indicadores de aprendizagem e defende uma política educacional baseada em metas, acompanhamento contínuo, modernização pedagógica e valorização dos profissionais da rede pública.
Entre as propostas estão a recomposição das aprendizagens, o fortalecimento da alfabetização na idade certa, a redução da evasão escolar e a ampliação da infraestrutura das escolas estaduais. A expansão do ensino integral e o fortalecimento do ensino modular buscam responder às necessidades de estudantes de comunidades do interior e de áreas de difícil acesso.
O plano também prevê formação continuada dos professores, melhoria das condições de trabalho, fortalecimento da carreira e cumprimento do piso salarial nacional do magistério. A ampliação da autonomia financeira das escolas e o aprimoramento dos sistemas de avaliação aparecem como instrumentos para melhorar a gestão e orientar intervenções pedagógicas.
A educação profissional e tecnológica é outra frente estratégica. A proposta prevê ampliar os centros de formação e alinhar cursos às vocações econômicas locais, incluindo pesca, agricultura, turismo, logística, saúde, ciência e tecnologia da informação.
No ensino superior, o documento propõe fortalecer a Universidade do Estado do Amapá (UEAP), ampliar a pesquisa aplicada e aproximar a formação acadêmica das necessidades do setor produtivo. A intenção é formar profissionais para atividades estratégicas e criar condições para que o conhecimento produzido no Estado contribua para o desenvolvimento regional.
O desafio será articular as políticas estaduais e municipais, garantir financiamento adequado e acompanhar a evolução dos indicadores de aprendizagem, de modo que a expansão da oferta educacional resulte em melhores oportunidades para crianças, jovens e adultos.
Infraestrutura: integrar o território e ampliar a capacidade logística
A infraestrutura estratégica é apresentada como um dos principais vetores de desenvolvimento econômico e redução das desigualdades regionais. O plano reconhece que as dificuldades de conexão entre municípios, as limitações logísticas e a descontinuidade de obras estruturantes restringem a circulação de pessoas e mercadorias, elevam custos e dificultam a atração de investimentos.
Entre as prioridades estão a pavimentação e a conclusão de trechos rodoviários, a substituição progressiva de pontes de madeira por estruturas mais duráveis, a melhoria da mobilidade e a ampliação da infraestrutura de transporte. A BR-156 recebe atenção especial, com a proposta de criar um gabinete de gestão integrada para acompanhar obras, coordenar instituições envolvidas e enfrentar entraves à execução.
O programa também prevê articulação com o Governo Federal para avançar nas obras da BR-210, fortalecer a capacidade operacional da Companhia Docas de Santana e estudar a implantação de um novo porto estadual voltado ao apoio logístico de atividades econômicas, inclusive as cadeias de petróleo e gás.
A construção de terminais hidroviários de passageiros em Macapá, Oiapoque e Laranjal do Jari e a implantação de uma Central de Abastecimento do Estado complementam a agenda. Essas iniciativas buscam melhorar o transporte regional, facilitar o escoamento da produção e fortalecer o abastecimento.
A execução dependerá da coordenação entre os governos estadual e federal, da disponibilidade de recursos e do licenciamento dos empreendimentos. Também será necessário assegurar planejamento de longo prazo e critérios transparentes para selecionar, contratar e acompanhar as obras.
Economia, emprego e renda: diversificar a base produtiva
O programa propõe reduzir a dependência econômica do setor público e das transferências governamentais, estimulando a atividade privada, a industrialização, o empreendedorismo e a geração de empregos. A estratégia é aproveitar vantagens geográficas e produtivas do Amapá, como a biodiversidade, os recursos hídricos, a atividade pesqueira, a produção mineral e a proximidade com a Guiana Francesa.
A proposta procura conectar investimentos em infraestrutura à criação de cadeias produtivas capazes de gerar renda e agregar valor à produção local. O plano prevê apoio às micro, pequenas e médias empresas, ampliação do acesso ao crédito, qualificação profissional e incentivo à participação de fornecedores amapaenses nas compras governamentais.
A política de compras públicas é tratada como instrumento de desenvolvimento regional. Entre as medidas estão a criação do Programa Fornecedor Amapaense e a ampliação das aquisições de produtos da agricultura familiar, da pesca artesanal e do extrativismo para abastecer escolas, hospitais e outros equipamentos públicos.
A intenção é fazer com que parte maior dos recursos movimentados pelo Estado circule entre empresas e produtores locais, estimulando a atividade econômica nos 16 municípios. Para isso, serão necessários mecanismos de qualificação dos fornecedores, processos de contratação transparentes e respeito às regras de licitação.
O programa também associa a formação profissional às demandas das atividades produtivas, com o objetivo de aproximar a qualificação da população das oportunidades que poderão surgir com novos investimentos.
Meio ambiente e bioeconomia: transformar a biodiversidade em oportunidade
A agenda ambiental procura conciliar conservação dos recursos naturais com geração de renda. O plano defende a valorização da floresta e da biodiversidade como ativos econômicos, com estímulo ao manejo sustentável, ao agroextrativismo, à pesca, à aquicultura e ao processamento de produtos locais.
Entre as iniciativas previstas estão o fortalecimento da assistência técnica, o incentivo à fruticultura, a implantação de estruturas de beneficiamento e a agregação de valor aos produtos agroextrativistas. A proposta busca ampliar mercados para a produção local, reduzir perdas e criar oportunidades para comunidades que dependem diretamente dos recursos naturais.
O documento também aborda a regularização fundiária e ambiental e o desenvolvimento de atividades agroindustriais. Essa agenda exige coordenação entre políticas econômicas, ambientais e territoriais, com atenção à legislação, à segurança jurídica e à proteção dos ecossistemas.
A perspectiva de crescimento da bioeconomia dependerá da capacidade de conciliar produção, inovação e conservação. O desafio da gestão será estabelecer critérios claros para os investimentos, fortalecer a fiscalização e assegurar que os benefícios econômicos alcancem produtores locais e comunidades tradicionais.
Petróleo e energia: oportunidade condicionada ao planejamento
O plano atribui importância estratégica às perspectivas relacionadas à exploração de petróleo e gás na Margem Equatorial. A proposta é preparar o Estado para eventuais investimentos, ampliando a infraestrutura logística, formando mão de obra especializada e criando condições para que empresas locais participem das cadeias de fornecimento.
Entre as medidas estão programas de qualificação profissional, linhas de crédito para empresas amapaenses, fortalecimento da pesquisa científica e articulação com instituições de ensino. O documento também propõe destinar parte de futuras receitas de royalties a um fundo de inovação e transição energética, vinculando possíveis ganhos do setor à diversificação econômica.
A agenda, porém, está associada a condicionantes que ultrapassam a atuação estadual, incluindo decisões regulatórias, licenciamento ambiental e a efetiva viabilidade dos projetos. Por isso, o planejamento precisa considerar diferentes cenários de investimento e evitar que expectativas de receitas futuras substituam o equilíbrio fiscal e a construção de outras bases econômicas.
A oportunidade defendida pelo programa consiste em preparar o Amapá para participar de uma eventual cadeia produtiva de energia sem abandonar a formação de profissionais, a inovação e a diversificação de sua economia.
Segurança pública: inteligência, prevenção e presença territorial
A segurança pública aparece como um dos desafios mais urgentes do programa. O diagnóstico apresentado no documento destaca a violência letal, os crimes transfronteiriços e a necessidade de ampliar a proteção de mulheres, crianças e populações vulneráveis.
A estratégia proposta combina modernização das forças de segurança, integração de informações, inteligência policial e investimentos em tecnologia. O plano prevê fortalecer o Centro Integrado de Inteligência em Segurança Pública, ampliar o videomonitoramento e instalar sistemas de monitoramento em rotas logísticas, portos, terminais fluviais e áreas de fronteira.
O enfrentamento à violência contra a mulher inclui a expansão dos serviços especializados, o monitoramento eletrônico de agressores sujeitos a medidas protetivas e o fortalecimento da Patrulha Maria da Penha. Também estão previstas ações preventivas em escolas e comunidades, com integração entre segurança, educação, esporte, cultura e assistência social.
A proposta reconhece ainda as particularidades geográficas do Estado e prevê ampliar a presença das forças de segurança em áreas rurais, fluviais, ribeirinhas e indígenas. O objetivo é combinar capacidade operacional, investigação e prevenção, com maior integração entre órgãos estaduais, municipais e federais.
Para a gestão pública, o desafio será acompanhar os resultados com indicadores consistentes, garantir a coordenação entre instituições e equilibrar o enfrentamento ao crime com a proteção dos direitos da população.
Cidadania, cultura e turismo: ampliar oportunidades nos municípios
O desenvolvimento territorial, segundo o programa, precisa alcançar além da infraestrutura e da atividade econômica. A agenda de cidadania e proteção social busca ampliar o acesso a direitos e reduzir desigualdades, enquanto as propostas para cultura, esporte e lazer pretendem fortalecer a participação comunitária e a qualidade de vida.
Na área cultural, o documento prevê ampliar o acesso às atividades nos 16 municípios, fortalecer os sistemas municipais de cultura e incentivar a economia criativa, incluindo artesanato, música, audiovisual e manifestações tradicionais. A proposta também contempla formação, apoio técnico e instrumentos de planejamento e financiamento para produtores e gestores culturais.
O turismo é apresentado como uma possibilidade de diversificação econômica, apoiada nos rios, na floresta, na gastronomia e na identidade cultural amapaense. O programa propõe estruturar roteiros de natureza, cultura, pesca esportiva e turismo náutico, além de fortalecer o turismo de base comunitária e melhorar a infraestrutura de destinos com potencial turístico.
A criação de instrumentos de planejamento e inteligência de mercado, como um observatório estadual do turismo e um banco de projetos, busca orientar investimentos e ampliar a articulação entre poder público e iniciativa privada. A qualificação profissional também aparece como condição para melhorar os serviços e ampliar a participação dos moradores nos benefícios da atividade.
O resultado dependerá da capacidade de integrar promoção turística, infraestrutura, preservação ambiental e valorização das comunidades. Nesse campo, o crescimento econômico precisará caminhar junto à proteção do patrimônio natural e cultural.
O desafio de transformar propostas em entregas
O programa de Dr. Furlan apresenta uma agenda ampla, que combina expansão dos serviços públicos, obras estruturantes, desenvolvimento produtivo e modernização administrativa. Seu principal desafio será coordenar essas frentes em um território marcado por dificuldades logísticas, diferenças entre os municípios e limitações de capacidade de investimento.
A implementação exigirá prioridades bem definidas, projetos tecnicamente consistentes, responsabilidade fiscal e mecanismos permanentes de transparência. Também será fundamental estabelecer metas verificáveis, publicar indicadores e prestar contas dos recursos empregados, permitindo que a população acompanhe o andamento das ações.
A proposta dos primeiros 100 dias, centrada no diagnóstico da situação estadual, na continuidade dos serviços e na retomada de obras, poderá funcionar como etapa inicial para organizar a execução do plano. A partir daí, a qualidade da gestão será medida pela capacidade de converter diretrizes em resultados concretos.
Para o Amapá, a perspectiva apresentada é a de um ciclo de desenvolvimento que conecte infraestrutura, educação, saúde, segurança, inovação e valorização das potencialidades regionais. O êxito dessa agenda dependerá não apenas do volume de investimentos, mas da qualidade das escolhas públicas, da cooperação institucional e da capacidade de fazer com que as oportunidades alcancem os 16 municípios.
Fontes de pesquisa
Plano de Governo Dr. Furlan — Amapá 2027–2030
Tribunal Superior Eleitoral (TSE)
Agência Brasil
CNN Brasil
Tribunal Regional Eleitoral do Amapá (TRE-AP)

