O documento que orienta a candidatura, intitulado O Rio Grande Pode Mais, apresenta uma agenda que combina responsabilidade fiscal, estímulo à atividade econômica, modernização administrativa, reforço da segurança pública e melhoria dos serviços essenciais. A recuperação, após as enchentes de 2024, também ocupa posição estratégica, com propostas de prevenção de desastres, infraestrutura resiliente e integração entre Estado e municípios.
Mais do que uma relação de promessas setoriais, o programa para 2027–2030 propõe uma mudança no modo de organizar a administração estadual: reduzir entraves burocráticos, estabelecer metas, monitorar resultados e aproximar as decisões governamentais das necessidades da população. O desafio será transformar essas diretrizes em entregas concretas, respeitando as limitações fiscais e a diversidade econômica e social das diferentes regiões gaúchas.
1. Biografia: da carreira militar à liderança política
Luciano Lorenzini Zucco
Militar da reserva, é graduado em Ciências Militares pela Academia Militar das Agulhas Negras (AMAN), mestre em Inteligência Estratégica (AMAN) e ex-deputado federal, Zucco construiu sua trajetória pública a partir da carreira no Exército e ampliou sua atuação política no Legislativo estadual e federal. Em 2026, é eleito no primeiro turno, governador do Rio Grande do Sul para o mandato de 2027 a 2030.
Luciano Lorenzini Zucco nasceu em Alegrete, na Fronteira Oeste gaúcha, em uma região historicamente marcada pela atividade agropecuária e pela proximidade com as fronteiras do Mercosul. Ao longo da carreira, também atuou no Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República, entre 2010 e 2016, na equipe responsável pela segurança presidencial.
Sua entrada na política eleitoral ocorreu em 2018, quando foi eleito deputado estadual no Rio Grande do Sul. Na Assembleia Legislativa, iniciou a construção de uma base política própria, associada à defesa da segurança pública, do setor produtivo e de pautas ligadas à fiscalização da atuação governamental.
Em 2022, foi eleito deputado federal pelo Rio Grande do Sul, alcançando a maior votação do estado naquele pleito. Na Câmara dos Deputados, ganhou projeção nacional ao assumir a presidência da Comissão Parlamentar de Inquérito sobre o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (CPI do MST), ampliando sua visibilidade junto a setores do agronegócio e do eleitorado interessado em temas de segurança e propriedade rural. Também exerceu a liderança da oposição na Câmara em 2025.
Em 2026, Zucco concorreu pela primeira vez ao governo gaúcho. A vitória no primeiro turno, com 58,05% dos votos válidos, representou a consolidação de sua trajetória política em âmbito estadual e o levou à condição de principal responsável pela condução do Executivo gaúcho no próximo ciclo administrativo. A vice-governadoria ficará a cargo de Silvana Covatti, política com experiência na Assembleia Legislativa e na administração pública estadual.
A passagem do Legislativo para o Executivo, contudo, altera substancialmente a natureza de suas responsabilidades. Como parlamentar, sua atuação estava concentrada na representação política, na fiscalização e na articulação legislativa. À frente do governo, terá de coordenar secretarias, administrar recursos públicos, negociar com municípios e União e responder diretamente pela execução de políticas que afetam os 497 municípios gaúchos.
2. O programa de governo: uma estratégia de crescimento com eficiência administrativa
O plano O Rio Grande Pode Mais, elaborado para o período de 2027 a 2030, apresenta como diagnóstico central a necessidade de recuperar o dinamismo econômico estadual, melhorar os serviços públicos e enfrentar as consequências dos eventos climáticos extremos. O texto sustenta que o crescimento econômico deve funcionar como eixo articulador das demais políticas, ampliando a capacidade de investimento e a geração de oportunidades.
A proposta não se limita à expansão da atividade empresarial. O documento procura vincular desenvolvimento econômico à modernização do Estado, à melhoria da prestação dos serviços e à ampliação das oportunidades de trabalho. A diretriz é combinar responsabilidade fiscal, revisão de despesas, atração de investimentos e maior eficiência na utilização do orçamento público.
Desenvolvimento econômico e geração de oportunidades
O programa coloca o crescimento no centro da estratégia governamental. Para isso, prevê fortalecer as cadeias produtivas já instaladas, estimular novos investimentos e melhorar o ambiente de negócios, com redução de exigências burocráticas e maior previsibilidade regulatória.
O agronegócio aparece como um dos pilares da economia estadual, mas a proposta também contempla a indústria, o comércio, os serviços, as cooperativas, a inovação, a cultura e o turismo. A intenção é ampliar o valor agregado da produção, favorecer a integração entre fornecedores e empresas e aumentar a capacidade de inserção dos produtos gaúchos em mercados nacionais e internacionais.
No turismo, o plano propõe uma política de longo prazo, com fortalecimento das regiões turísticas, estruturação de roteiros comercializáveis e promoção do Rio Grande do Sul como destino nacional e internacional, com atenção especial ao Mercosul. A economia criativa, incluindo gastronomia, artesanato, audiovisual, design e atividades culturais, também é apresentada como fonte potencial de emprego e renda.
Para a gestão pública, o ponto decisivo será transformar essas diretrizes em projetos com financiamento, cronogramas e metas verificáveis. A atração de investimentos, por si só, não garante resultados: sua efetividade dependerá da capacidade de remover gargalos logísticos, qualificar trabalhadores, oferecer segurança jurídica e assegurar que os empreendimentos se convertam em atividade produtiva, empregos e arrecadação.
Responsabilidade fiscal e reorganização do Estado
O documento reconhece que o equilíbrio das contas públicas é uma condição para recuperar a capacidade de investimento estadual. A estratégia proposta combina crescimento econômico, revisão de gastos, combate à sonegação, melhoria da qualidade da despesa e integração entre planejamento, orçamento e execução.
Em vez de tratar o orçamento apenas como instrumento de autorização de despesas, o programa pretende utilizá-lo como mecanismo de definição de prioridades. A proposta prevê vincular cada compromisso governamental a recursos disponíveis, responsáveis, prazos, indicadores e entregas, com acompanhamento periódico do desempenho.
A reorganização administrativa também ocupa espaço relevante. O plano defende racionalizar estruturas, reduzir sobreposições entre órgãos, simplificar procedimentos e fortalecer a coordenação central do governo. A intenção declarada é diminuir gastos supérfluos e concentrar a administração em serviços que produzam resultados concretos para a população.
A transformação digital aparece como instrumento dessa mudança. Antes de informatizar processos, a proposta prevê revisar exigências, eliminar etapas desnecessárias, integrar bases de dados e organizar os serviços de acordo com as necessidades do cidadão. A digitalização, nessa perspectiva, deve reduzir custos e prazos, e não simplesmente reproduzir a burocracia em plataformas eletrônicas.
O principal teste será a capacidade de conciliar a redução de despesas com a manutenção e a melhoria dos serviços essenciais. A eficiência administrativa dependerá não apenas de mudanças na estrutura, mas também de planejamento de pessoal, qualificação dos servidores, transparência e avaliação consistente das políticas públicas.
3. Segurança pública: integração, inteligência e gestão territorial
A segurança pública é uma das áreas prioritárias do programa. A proposta prevê uma atuação mais integrada das forças estaduais, com reforço da inteligência policial, qualificação das investigações e enfrentamento das estruturas financeiras e logísticas das organizações criminosas.
Entre as medidas previstas estão a ampliação do cercamento eletrônico, a integração de sistemas de videomonitoramento, a modernização da perícia criminal e o fortalecimento da investigação de homicídios, feminicídios, roubos, extorsões e crimes digitais. O documento também propõe recomposição planejada dos efetivos, renovação de equipamentos e melhoria das condições de trabalho dos profissionais da segurança.
O plano amplia essa abordagem para o sistema prisional, com medidas destinadas a recuperar o controle das unidades, fortalecer a Polícia Penal e impedir que organizações criminosas utilizem presídios como centros de comando. Ao mesmo tempo, contempla oportunidades de educação, qualificação profissional e trabalho remunerado para pessoas privadas de liberdade, com o objetivo de reduzir a reincidência.
A gestão territorial por indicadores é outro componente central. O governo pretende acompanhar metas regionais, tempo de resposta, esclarecimento de crimes e distribuição dos recursos conforme as necessidades de cada localidade.
Do ponto de vista administrativo, o desafio será garantir que o investimento em tecnologia seja acompanhado de integração institucional, capacitação profissional e mecanismos de controle. A eficácia dessa política dependerá da coordenação entre polícias, perícia, sistema de Justiça e municípios, respeitadas as competências legais de cada instituição.
4. Saúde: reduzir filas e organizar a rede de atendimento
Na saúde, o programa estabelece como prioridade ampliar o acesso a consultas especializadas, exames, cirurgias e tratamentos. O diagnóstico apresentado aponta dificuldades de regulação, desigualdades regionais, fragmentação dos serviços e necessidade de melhorar a integração entre hospitais e atendimento ambulatorial.
A principal diretriz é organizar a rede estadual de acordo com as necessidades dos pacientes. Para isso, o documento propõe uma fila única e transparente, classificação das solicitações por risco clínico, ampliação da oferta regional de especialistas e maior integração entre atenção primária, serviços especializados e hospitais.
A saúde digital também aparece como instrumento de reorganização. Telessaúde, teleinterconsulta, telediagnóstico e prontuários interoperáveis devem contribuir para reduzir deslocamentos desnecessários, evitar a repetição de exames e facilitar a continuidade do tratamento.
O plano contempla, ainda, o fortalecimento da saúde mental, a atenção materno-infantil, a assistência farmacêutica, o diagnóstico e tratamento do câncer e a preparação do Sistema Único de Saúde para emergências. Prevê também rever os critérios de financiamento hospitalar e avaliar o Programa Assistir, considerando a demanda efetiva e a função regional dos estabelecimentos.
A execução dessas medidas exigirá pactuação com municípios, hospitais e demais prestadores, além de financiamento compatível com as necessidades assistenciais. A redução das filas será um dos indicadores mais objetivos para avaliar se a reorganização administrativa produzirá benefícios perceptíveis para a população.
5. Educação: aprendizagem, permanência escolar e formação profissional
Na educação, o programa desloca o foco da política pública para os resultados de aprendizagem. A proposta prevê fortalecer a alfabetização na idade certa, recuperar defasagens, ampliar a educação integral e melhorar a infraestrutura das escolas.
A colaboração com os municípios é considerada indispensável, sobretudo para assegurar que as crianças desenvolvam habilidades de leitura, escrita e matemática nos primeiros anos do ensino fundamental. O documento também prevê avaliações diagnósticas, metas de desempenho e apoio específico às escolas que enfrentam maiores dificuldades.
Outro eixo é a aproximação entre educação e mundo do trabalho. A reorganização do ensino médio e o fortalecimento da educação profissional são apresentados como caminhos para ampliar as oportunidades dos jovens e facilitar sua transição para o mercado de trabalho.
O desafio de gestão será transformar avaliações e indicadores em instrumentos de melhoria pedagógica, sem reduzir a qualidade educacional a resultados numéricos. Para isso, será necessário combinar formação docente, valorização das equipes escolares, infraestrutura adequada e acompanhamento contínuo dos estudantes.
6. Reconstrução e resiliência climática: uma política permanente
As enchentes de 2024 constituem um dos principais marcos do diagnóstico apresentado pelo plano. O documento defende que o Estado substitua a predominância de respostas emergenciais por uma política permanente de prevenção, preparação, proteção e recuperação.
A proposta prevê fortalecer a Defesa Civil estadual e as estruturas municipais, concluir e integrar sistemas de monitoramento hidrológico e meteorológico, aperfeiçoar os alertas à população e atualizar os mapas de risco. Também contempla a manutenção de diques, comportas, casas de bombas e outras estruturas de proteção contra cheias.
O planejamento inclui obras de drenagem, contenção e redução de riscos, além de protocolos para evacuação, abrigamento e distribuição de recursos em emergências. A reconstrução deve incorporar critérios de resiliência para reduzir a vulnerabilidade de cidades, serviços públicos e infraestrutura diante de novos eventos extremos.
A agenda climática tem implicações que ultrapassam a Defesa Civil. Rodovias, hospitais, escolas, sistemas de abastecimento e cadeias produtivas precisam manter condições de funcionamento ou recuperar sua operação com rapidez diante de desastres.
Por isso, a implementação dependerá de coordenação entre Estado, municípios, União, comunidade científica e setor privado, além da capacidade de estruturar projetos tecnicamente viáveis e captar recursos. A prioridade administrativa será transformar prevenção e resiliência em critérios permanentes do planejamento e do orçamento.
pje-03. PLANO DE GOVERNO ZUCCO.pdf
7. Infraestrutura e logística: conectar regiões e reduzir custos
O programa identifica gargalos na infraestrutura logística como obstáculos à competitividade estadual. A dependência do transporte rodoviário, as limitações ferroviárias e hidroviárias e a necessidade de manutenção e modernização da infraestrutura elevam custos e dificultam a integração entre regiões produtoras, centros industriais e mercados consumidores.
A estratégia proposta prevê atualizar o Plano Estadual de Logística de Transportes, organizar uma carteira plurianual de projetos e integrar rodovias, ferrovias, hidrovias, portos e aeroportos. O documento também defende ampliar parcerias com a União e a iniciativa privada e incorporar critérios de resiliência climática aos investimentos.
A proposta de gestão é relevante porque procura conectar planejamento, financiamento e execução. Projetos prioritários devem contar com estudos, cronogramas, custos, fontes de recursos e metas de desempenho, evitando que iniciativas permaneçam indefinidamente na fase de planejamento.
O desafio será estabelecer uma ordem de prioridades compatível com a disponibilidade fiscal, o potencial de retorno econômico e as necessidades regionais. A modernização logística poderá contribuir para o agronegócio, a indústria, o comércio exterior e a integração territorial, desde que os investimentos sejam executados e mantidos ao longo do tempo.
8. Proteção social e atendimento às populações vulneráveis
Embora o crescimento econômico seja apresentado como prioridade, o programa também estabelece compromissos de proteção social. O documento propõe combater a fome, ampliar oportunidades de trabalho e fortalecer políticas destinadas a mulheres, crianças, adolescentes, idosos e pessoas com deficiência.
Na proteção às mulheres, o plano prevê integrar segurança pública, saúde, assistência social, educação e municípios, com avaliação de risco, monitoramento de medidas protetivas e ampliação de serviços especializados e casas-abrigo.
Também são contemplados o acolhimento de crianças e adolescentes, o fortalecimento das famílias acolhedoras e o apoio a vítimas de violência para que possam conquistar autonomia por meio de qualificação profissional, trabalho, moradia e acesso a serviços.
A diretriz social do documento procura associar proteção imediata e oportunidades de emancipação. Para que essa abordagem produza resultados, será necessário assegurar continuidade de atendimento, financiamento adequado e integração entre os serviços estaduais e municipais, especialmente nos territórios com menor cobertura assistencial.
9. Governança e execução: o teste da capacidade administrativa
Um dos aspectos mais importantes do programa é a tentativa de transformar compromissos políticos em um sistema de gestão orientado por resultados. O documento prevê projetos estratégicos acompanhados diretamente pelo centro de governo, com responsabilidades definidas, indicadores, prazos e avaliação periódica.
A proposta também valoriza o diálogo com prefeitos, vereadores, universidades, entidades representativas, setores produtivos, organizações da sociedade civil e Assembleia Legislativa. O municipalismo aparece como princípio de articulação para executar políticas que dependem de cooperação entre diferentes níveis de governo.
Essa abordagem poderá favorecer a coordenação de iniciativas transversais, como reconstrução climática, infraestrutura, saúde regional e desenvolvimento econômico. No entanto, sua efetividade dependerá da capacidade de compatibilizar planejamento, orçamento e execução, corrigir atrasos e dar transparência aos resultados.
Para os profissionais de administração pública, o ponto central será observar se as metas estabelecidas se convertem em indicadores consistentes e entregas verificáveis. A divulgação de resultados, a qualidade dos dados e a avaliação das políticas deverão permitir que a sociedade acompanhe não apenas quanto o governo gastou, mas também quais serviços e benefícios foram efetivamente produzidos.
10. O desafio do mandato 2027–2030
A eleição de Luciano Zucco inaugura um ciclo no qual segurança pública, crescimento econômico, reorganização administrativa e resiliência climática deverão disputar espaço na agenda e no orçamento estadual. O programa apresenta uma visão integrada dessas prioridades, com ênfase na eficiência do gasto, na desburocratização e na busca de investimentos.
A execução, porém, exigirá conciliar objetivos ambiciosos com as limitações fiscais, as demandas sociais e a necessidade de reconstruir e proteger a infraestrutura gaúcha. A melhoria dos serviços de saúde, a aprendizagem dos estudantes, a redução da criminalidade e a prevenção de desastres dependem de políticas continuadas, articulação federativa e capacidade técnica.
O sucesso do novo governo não será medido apenas pela quantidade de iniciativas anunciadas ou pela reorganização dos órgãos públicos. Será avaliado, sobretudo, pela capacidade de reduzir filas, elevar a qualidade da educação, ampliar a segurança, criar oportunidades de trabalho, melhorar a infraestrutura e proteger a população diante de eventos extremos.
A agenda apresentada em O Rio Grande Pode Mais oferece um roteiro para essa transformação. A passagem do plano à prática, entretanto, dependerá da consistência das decisões, da transparência na aplicação dos recursos e da capacidade de converter prioridades políticas em resultados concretos para os gaúchos.

