Ao discutir violência, invisibilidade histórica e participação política, a ministra do Supremo Tribunal Federal, Cármen Lúcia Antunes Rocha, reforça a necessidade de uma governança pública baseada na pluralidade e na igualdade real.
A ampliação da presença feminina nos espaços de liderança foi um dos temas centrais do XV Congresso Consad de Gestão Pública. Em um cenário marcado por debates sobre transformação institucional, diversidade e inovação no setor público, a conferência da ministra do Supremo Tribunal Federal (STF), Cármen Lúcia, trouxe uma reflexão sobre os desafios históricos enfrentados pelas mulheres brasileiras na ocupação de posições de poder e decisão.
Ao discutir igualdade, participação política e violência institucional, a ministra defendeu a construção de uma administração pública mais plural, democrática e comprometida com a valorização da diversidade como elemento fundamental para o fortalecimento das instituições e da própria democracia brasileira.
A construção de uma administração pública mais plural, democrática e representativa passa, necessariamente, pela ampliação da presença feminina nos espaços de poder e decisão. O tema esteve no centro dos debates do XV Congresso Consad de Gestão Pública, que reuniu gestores, especialistas e representantes de instituições públicas para discutir os desafios da liderança feminina no setor público brasileiro.
A conferência foi conduzida pela ministra do Supremo Tribunal Federal (STF), Cármen Lúcia, que apresentou uma reflexão sobre os obstáculos históricos enfrentados pelas mulheres na ocupação de posições de liderança e sobre a necessidade de fortalecer uma cultura institucional baseada na igualdade, na pluralidade e na participação efetiva.
Ao longo da palestra, a ministra destacou que a ampliação da presença feminina nos espaços de decisão não ocorre por concessão, mas pela construção permanente de políticas e práticas institucionais comprometidas com a igualdade real. Para ela, o Brasil ainda carrega marcas profundas de uma cultura historicamente estruturada sob uma lógica masculina de poder.
“Nós fomos formados em um Brasil varonil”, afirmou a ministra, ao lembrar que, durante décadas, os espaços de liderança política, econômica e institucional foram reservados majoritariamente aos homens. Segundo ela, a igualdade prevista na Constituição precisa deixar de ser apenas um princípio formal para se transformar em prática concreta dentro das instituições públicas.
Desafios históricos e violência institucional
Cármen Lúcia alertou para a persistência da violência contra as mulheres e para os impactos desse cenário na participação feminina nos espaços de liderança. Ela ressaltou que a violência física, psicológica, política e institucional ainda atua como barreira direta à ascensão das mulheres em diferentes áreas da sociedade.
Se nós não conseguimos manter nem sequer a vida das mulheres, é impossível imaginar que elas cheguem às lideranças como algo natural da democracia.
Cármen Lúcia, ministra do STF
A ministra destacou ainda que a exclusão feminina dos espaços de decisão faz parte de um processo histórico de invisibilização das mulheres brasileiras. Ao citar nomes como Hipólita Jacinta e Bárbara de Alencar, figuras importantes na luta pela independência e pela construção política do País, Cármen Lúcia defendeu a necessidade de revisitar a história nacional sob uma perspectiva mais plural.
“Apagam-se as mulheres da história como se nunca tivessem existido”, observou, ao afirmar que muitas lideranças femininas foram silenciadas ao longo dos séculos mesmo tendo exercido papéis fundamentais na formação política e social do Brasil.
No entendimento da ministra, transformar esse cenário exige mais do que tolerância institucional. É necessário construir uma governança verdadeiramente solidária, baseada no reconhecimento da diversidade e no fortalecimento da participação coletiva.
Debate repercute entre participantes
As reflexões apresentadas pela ministra também repercutiram entre os participantes do Congresso, especialmente entre mulheres que atuam diretamente na gestão pública.
Para a gestora administrativo-financeira da CearaPar, Valeska Passos, a participação de Cármen Lúcia foi um dos momentos mais marcantes da programação. “A entrevista com a ministra foi a parte mais impactante do evento, focada no empoderamento da mulher”, afirmou.
A articuladora do Selo Unicef do município de Independência (CE), Ana Rodrigues, destacou a força simbólica e política da presença da ministra no congresso. “Foi uma emoção vê-la. Ela é muito assertiva nas falas dela e contribui muito para a geração dela e para a nossa. O discurso foi muito assertivo em relação ao protagonismo das mulheres. Para mim, foi o ponto forte do congresso”, ressaltou.
Ao promover o debate sobre participação feminina nos espaços de decisão, o XV Congresso Consad reforçou a importância de construir instituições mais plurais, democráticas e alinhadas à diversidade da sociedade brasileira.
Saiba mais: o caso que marcou o debate sobre violência contra a mulher no Brasil
Durante sua palestra, a ministra Cármen Lúcia relembrou um dos episódios mais emblemáticos da violência de gênero no Brasil: o assassinato de Ângela Diniz, em 1976, pelo então companheiro Raul Fernando do Amaral Street, conhecido como Doca Street.
O caso ganhou repercussão nacional após o réu ser, inicialmente, absolvido sob a tese da “legítima defesa da honra”, argumento amplamente aceito pela sociedade brasileira naquele período. A decisão provocou forte mobilização de movimentos feministas e se tornou símbolo da luta pelos direitos das mulheres e pelo enfrentamento da violência de gênero no País.
O episódio é revisitado no podcast Praia dos Ossos, da Rádio Novelo, que analisa como a cultura da violência e da culpabilização feminina marcou a sociedade brasileira ao longo das décadas. A produção virou um documentário produzido pela Globoplay e protagonizado pela atriz Marjorie Estiano.

