Durante o XV Congresso Consad de Gestão Pública, o general da reserva André Novais, assessor especial da Diretoria Internacional da Fundação Getulio Vargas (FGV), explicou como conflitos internacionais, disputas por recursos estratégicos e novas formas de guerra vêm impactando governos, empresas e cidadãos em todo o mundo.
Por muito tempo, a geopolítica foi vista como um tema restrito à diplomacia, às Forças Armadas e aos especialistas em relações internacionais. Hoje, essa realidade mudou. Em um cenário marcado por conflitos armados, disputas comerciais, insegurança energética e transformações tecnológicas aceleradas, compreender o que acontece além das fronteiras nacionais tornou-se uma necessidade também para gestores públicos. Foi essa reflexão que guiou a palestra do general da reserva André Novais durante o congresso, na qual ele defendeu que a geopolítica voltou a ocupar uma posição central nas decisões estratégicas de governos, empresas e instituições.
Vivemos um período de tensão sem precedentes recentes. O mundo tornou-se extremamente turbulento e não há sinais de retorno ao padrão de estabilidade que conhecemos nas últimas décadas.
André Novais, assessor especial da Diretoria Internacional da FGV
Segundo o especialista, entender geografia, história e teoria política é cada vez mais importante para interpretar conflitos, antecipar riscos e construir estratégias de longo prazo.
Quando a geopolítica chega ao bolso do cidadão
Embora pareça distante da rotina das pessoas, a geopolítica influencia diretamente questões do cotidiano. O aumento do preço dos combustíveis, oscilações no custo dos alimentos, dificuldades nas cadeias de suprimentos e crises energéticas são alguns exemplos de impactos gerados por disputas internacionais. Para Novais, o planejamento estratégico deixou de ser uma preocupação exclusiva de grandes empresas e passou a ser uma necessidade para prefeitos, governadores, secretários e gestores públicos. “A geopolítica dita os rumos de tudo. Hoje ela é uma ferramenta essencial para compreender segurança alimentar, segurança energética e os riscos que podem afetar um país”, destacou.
Um mundo mais instável
O especialista chamou atenção para o aumento dos conflitos em diferentes regiões do planeta. Segundo ele, atualmente existem cerca de 60 conflitos ativos envolvendo aproximadamente 90 países, o maior número registrado desde o fim da Segunda Guerra Mundial. Essas disputas vão muito além dos países diretamente envolvidos: seus efeitos repercutem sobre rotas comerciais, mercados financeiros, cadeias produtivas e fluxos de energia.
O Brasil no tabuleiro internacional
Apesar do cenário de instabilidade, Novais avalia que o Brasil ocupa uma posição privilegiada. O país reúne características raras no contexto global: vasto território, abundância de recursos naturais, ausência de disputas fronteiriças relevantes e tradição diplomática consolidada. Além disso, o Brasil mantém relações diplomáticas com todos os países reconhecidos pela Organização das Nações Unidas (ONU), o que amplia sua capacidade de diálogo e articulação internacional. Para o especialista, o desafio está menos na posição do país e mais na capacidade de construir estratégias de longo prazo. “Temos todas as condições para nos posicionarmos de forma soberana e aproveitar oportunidades econômicas e políticas que surgem nesse cenário”, afirmou.
As novas guerras do século XXI
Se antes os conflitos eram definidos principalmente por tropas e armamentos convencionais, hoje a disputa ocorre em múltiplos ambientes. Segundo Novais, o mundo vive uma combinação de guerra cibernética, disputa tecnológica, controle de recursos estratégicos e influência informacional. Nesse contexto, ganham importância os chamados choke points — gargalos geográficos, logísticos ou financeiros capazes de impactar a economia global. O Estreito de Hormuz, por onde passa grande parte do petróleo mundial, é um exemplo conhecido; mas o especialista destaca que o Estreito de Malaca, entre o Oceano Índico e o Pacífico, representa um risco ainda maior para o comércio internacional.
Saiba mais: o que é um choke point?
São pontos estratégicos cuja interrupção pode afetar cadeias globais de comércio, transporte ou finanças. Quando um desses pontos sofre interrupções, os impactos podem ser sentidos em diversos países, mesmo aqueles localizados a milhares de quilômetros de distância. Entre os principais exemplos estão:
- Estreito de Malaca
- Estreito de Hormuz
- Canal do Panamá
- Canal de Suez
- Sistemas financeiros internacionais
O caso do Estreito de Malaca
Responsável por conectar importantes rotas marítimas entre Ásia, Oriente Médio e Europa, o Estreito de Malaca é considerado um dos corredores comerciais mais importantes do planeta. Para o Brasil, sua relevância é direta: grande parte das exportações brasileiras destinadas à China passa pela região e, da mesma forma, produtos industrializados, componentes eletrônicos, baterias e equipamentos importados pelos brasileiros também dependem dessa rota. “Se Malaca fechar, nossas exportações e importações ficam paralisadas”, alertou Novais.
Poder, tecnologia e informação
Ao analisar a evolução dos conflitos contemporâneos, o especialista destacou que a disputa por poder ultrapassou os territórios físicos. Hoje, empresas de tecnologia, infraestrutura digital, redes de dados e sistemas de informação também fazem parte do cálculo estratégico dos Estados. A guerra informacional, impulsionada por campanhas de desinformação, ataques cibernéticos e influência digital, tornou-se uma das principais ferramentas utilizadas por governos para ampliar sua capacidade de atuação internacional. “Uma potência não precisa necessariamente ocupar fisicamente outro país. Ela pode exercer influência por meio da tecnologia, dos dados ou do controle de recursos estratégicos”, explicou.
Planejar olhando para o mundo
A principal mensagem deixada por André Novais durante sua participação no Congresso Consad foi que a geopolítica deixou de ser um tema distante para se tornar uma variável central do planejamento público. Em um ambiente internacional cada vez mais complexo, compreender riscos, antecipar cenários e monitorar movimentos globais tornou-se parte da própria capacidade dos governos de planejar o futuro. Mais do que acompanhar conflitos, trata-se de entender como eles afetam a economia, a segurança, a energia, os alimentos e, em última instância, a vida dos cidadãos.

