No coração do Centro de Eventos do Ceará, entre os dias 20 e 22 de maio de 2026, o XV Congresso Consad de Gestão Pública não foi apenas um palco para grandes palestras. Nos bastidores, na tarde do dia 21 de maio, em salas pulsantes de troca técnica, os Grupos de Trabalho (GTs) do Conselho Nacional de Secretários de Estado da Administração (Consad) operaram como o verdadeiro “motor” da modernização administrativa do país.
Enquanto governadores e ministros debatiam o “Governo Digital e a Governança Interfederativa”, centenas de técnicos de todos os estados brasileiros se debruçaram sobre soluções práticas para problemas que afetam o dia a dia de milhões de brasileiros. O resultado foi uma agenda estratégica que promete transformar a burocracia em serviço e a distância em conexão digital.
O poder da inteligência coletiva: os GTs em ação
Os Grupos de Trabalho do Consad são fóruns permanentes onde a experiência de um estado vira solução para outro. Durante o congresso em Fortaleza, temas como Transformação Digital, Gestão de Pessoas e Compras Públicas ganharam novos contornos. “A reunião dos GTs é o momento em que a teoria encontra a prática. Aqui, o técnico do Amapá troca figurinhas com o do Rio Grande do Sul sobre como implementar o SEI (Sistema Eletrônico de Informações) de forma mais eficiente”, comentou um dos participantes. Essa colaboração evita que cada estado precise “reinventar a roda”, economizando recursos públicos e acelerando a entrega de resultados.
GT de Transformação Digital e Ciência de Dados
Coordenado por Bruno Silveira (RS), em parceria com Rodrigo Xavier (RJ) e com articulação da Associação Brasileira de Entidades Estaduais de TIC (ABEP-TIC), o grupo tem como madrinha a secretária de Estado Danielle Calazans, do Rio Grande do Sul. A comunidade reúne 13 grupos de discussão on-line, totalizando cerca de 300 técnicos; a reunião presencial em Fortaleza contou com aproximadamente 40 participantes. Um dos temas centrais foi a quebra da barreira do “apartheid digital”: um serviço público que só funciona para quem tem o smartphone de última geração não é um serviço público pleno. Os técnicos discutiram diretrizes de acessibilidade digital e o conceito de “omnicanalidade”, em que o cidadão inicia um atendimento no celular e o conclui em um posto físico com a mesma fluidez, garantindo que o digital seja uma ponte, e não um muro.
O dado deve viajar, não o cidadão.
Pacto Digital Interfederativo — GT de Transformação Digital
Para que essa engrenagem funcione, a confiança é o lubrificante essencial — e ela nasce da governança. O Pacto Digital Interfederativo foi um dos grandes marcos discutidos: um acordo de cooperação entre União, estados e municípios para o compartilhamento seguro de informações, com foco na interoperabilidade total e no respeito rigoroso à Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD). Com a digitalização acelerada, a cibersegurança deixou de ser um tema restrito à TI para se tornar prioridade estratégica de gestão: os técnicos trabalharam na criação de protocolos comuns de resposta a incidentes e em redes de defesa cibernética, numa espécie de “imunidade de rebanho” digital — quando um estado descobre uma vulnerabilidade, a informação é compartilhada instantaneamente com os demais.
GT de Gestão de Pessoas
Coordenado por Silvana Dourado (CE) e apadrinhado pela secretária de Estado Ana Maraíza (PE), o GT de Pessoas reúne uma comunidade de 145 técnicos. O encontro presencial teve 38 representantes de diversos estados e do Distrito Federal, que se reuniram para consolidar o que hoje é considerado o maior ativo do grupo: uma rede federativa de aprendizagem e produção técnica. A pauta central foi a oficina de construção dos Indicadores Nacionais de Gestão de Pessoas, com o objetivo de consolidar um modelo comum de coleta de dados e criar uma base comparável entre os estados. Para a coleta inicial, o grupo pactuou dimensões prioritárias:
- Diversidade e Inclusão: levantamento sobre leis de cotas e participação por raça no serviço público.
- Liderança e Gênero: percentual de mulheres e de servidores efetivos ocupando cargos de liderança.
- Estrutura da Força de Trabalho: análise da participação das diferentes gerações e a proporção de contratações temporárias.
O grupo também apresentou um cronograma de entregas estratégicas para 2026:
- Produção Intelectual: elaboração de um e-book e um artigo científico sobre indicadores de gestão de pessoas.
- Apoio Técnico: publicação de material sobre retificações do eSocial e nota técnica sobre a reforma administrativa.
- Relatório Nacional: compilado de boas práticas, pesquisas e estudos de caso para servir de guia aos gestores estaduais.
Um dos pontos altos foi o alinhamento conceitual: os técnicos debateram a necessidade de padronizar tipos de vínculo e definir com clareza o que se entende por “liderança”, respeitando as diferentes estruturas administrativas estaduais para evitar distorções nos dados. Olhando para o futuro, o grupo já ventila a criação de indicadores sobre a composição ampliada da força de trabalho, incluindo terceirizados e contratos de gestão.
GT de Patrimônio e Ativos
Coordenado por Marcos Soares (MG) e apadrinhado pela secretária de Estado Cynthia Gomes (AP), o GT de Patrimônio e Ativos reúne 99 técnicos. Em Fortaleza, 50 especialistas estaduais discutiram como transformar o patrimônio público — muitas vezes visto apenas como custo — em um ativo estratégico para o desenvolvimento do Estado. A pauta girou em torno de dois eixos: a aplicabilidade dos Fundos de Investimento Imobiliário (FIIs) no contexto brasileiro e o fortalecimento do capital humano por meio de capacitações técnicas especializadas. O arranjo dos FIIs foi debatido com foco em:
- Rentabilização: transformar imóveis em cotas de fundos que geram dividendos para o Tesouro Estadual.
- Eficiência na manutenção: transferir a gestão operacional dos ativos para administradores profissionais.
- Aumento da liquidez: facilitar a alienação ou permuta de ativos de forma transparente e ágil.
O debate contou com a apresentação do Banco Mundial sobre conceitos e requisitos dos FIIs e casos internacionais; São Paulo trouxe sua experiência com um fundo imobiliário estadual já consolidado e Goiás apresentou seu projeto recente de estruturação de um FII. O grupo também reforçou que a modernização só ocorrerá com pessoal qualificado na ponta, tratando a capacitação técnica como pilar central. Ao final, destacou o impacto direto para o cidadão de uma boa gestão patrimonial:
- Liberar recursos: a economia obtida com modelos modernos pode ser revertida para saúde e segurança.
- Melhorar serviços: uma logística eficiente garante que o remédio chegue ao posto e a merenda à escola na qualidade e no tempo certos.
- Transparência: o cidadão passa a ter clareza sobre quais são e como estão sendo usados os bens públicos.
GT de Compras Públicas
Coordenado por João Marcos (RN) e apadrinhado pelo secretário de Estado André Freitas (PB), o GT de Compras Públicas reúne 81 técnicos; em Fortaleza, 35 gestores e especialistas debateram como as novas tecnologias e modelos de governança estão transformando o ato de comprar em um ato estratégico de gestão. A pauta focou na simplificação de processos, na previsibilidade de gastos e na força da centralização para gerar economia de escala, por meio de ferramentas como o SICX, o Registro de Preços e o PCA.
Sistema de Compras Expressas (SICX)
Voltado a desburocratizar aquisições de baixa complexidade e pronto atendimento, o SICX reduz o tempo médio entre a necessidade e a entrega do produto e libera as equipes de licitação para focar em contratos de alta complexidade e valor.
Modelos de centralização: o poder da compra em lote
Centralizar não é apenas “comprar tudo em um só lugar”, mas padronizar especificações e consolidar volumes para aumentar o poder de barganha do Estado: gera economia de escala (redução dos preços unitários) e padronização (produtos com a mesma qualidade e especificação técnica em diferentes órgãos).
Registro de Preços e Plano de Contratações Anuais (PCA)
O Registro de Preços foi apontado como a ferramenta de ouro para a gestão de estoques e fluxos financeiros, permitindo comprar apenas o necessário, quando necessário, e contratar de forma imediata uma vez registrada a ata. Já o PCA é a base que retira a gestão pública do modo “reativo” e a coloca no modo “estratégico”, dando previsibilidade ao mercado e garantindo alinhamento orçamentário. Ao conectar o planejamento do PCA com a agilidade do SICX e a força do Registro de Preços centralizado, o Consad entrega aos estados um roteiro para gastar menos e comprar melhor.
GT de Saúde do Servidor
Coordenado por Aline Melo (PI) e apadrinhado pela secretária de Estado Paula Dantas (AL), o GT de Saúde do Servidor reúne 50 técnicos dedicados a modernizar a saúde ocupacional pública. Entre os temas debatidos estiveram medicina ocupacional, engenharia de segurança do trabalho, elaboração e gestão de laudos técnicos e a integração de processos e informações com o eSocial. Um dos principais encaminhamentos foi a criação e o fortalecimento de um Hub de Soluções em Saúde e Segurança do Trabalho (SST), concebido como plataforma colaborativa para compartilhamento de boas práticas, metodologias, tecnologias e ferramentas entre os estados.
Durante a programação, Piauí, Mato Grosso e Minas Gerais apresentaram experiências voltadas a temas estratégicos, com destaque para metodologias de avaliação biopsicossocial para o enquadramento da pessoa com deficiência e para sistemas de identificação e levantamento de riscos psicossociais nos ambientes de trabalho, em linha com a Norma Regulamentadora nº 01 (NR-01). Os participantes destacaram que a integração entre os estados e o compartilhamento de experiências têm sido fundamentais para acelerar a implementação de soluções inovadoras e fortalecer as políticas de Saúde e Segurança do Trabalho no setor público.
GT de Escolas de Governo
Coordenado por Carlos Alberto Moura (PI) e apadrinhado pela secretária de Estado Lucivanda Nunes (SE), o GT de Escolas de Governo articula uma rede colaborativa voltada ao fortalecimento institucional, à inovação na formação de servidores e ao desenvolvimento de soluções compartilhadas. Em Fortaleza, o grupo se reuniu em torno de uma agenda ambiciosa, marcada pela integração federativa e pelo foco em tecnologias emergentes como a inteligência artificial, com o detalhamento do Plano de Trabalho para 2026.
Um dos pilares discutidos foi o fortalecimento dos laços com a Escola Nacional de Administração Pública (Enap) e a consolidação de uma política editorial robusta para padronizar publicações técnicas no âmbito do Consad. O GT também apresentou os avanços de seus subgrupos:
- Boas Práticas: banco nacional de boas práticas e consolidação da primeira Matriz de Maturidade das Escolas de Governo do Brasil.
- Integração: cooperação entre as escolas, compartilhamento de ofertas formativas e construção de diretrizes nacionais.
- Plataforma Digital: consolidação de uma plataforma virtual conjunta, com matrícula cruzada de servidores de diferentes estados.
Entre as principais entregas destaca-se a Matriz de Maturidade das Escolas de Governo, ferramenta inédita no Brasil que estabelece indicadores objetivos para avaliar dimensões como governança, gestão de pessoas, transformação digital, sustentabilidade institucional, inovação e articulação em redes, permitindo que cada instituição identifique seu estágio de desenvolvimento e defina prioridades. O subgrupo de Transformação Digital e Inteligência Artificial apresentou o mapeamento do diagnóstico nacional de uso de IA nas escolas, a proposta de um modelo padrão de marco regulatório e a realização de um Workshop Nacional sobre IA na Gestão Pública, com o objetivo de colocar as Escolas de Governo como protagonistas na alfabetização digital do funcionalismo.
Conclusão: educação e cooperação como base da eficiência
O encontro dos GTs em Fortaleza reafirmou que não existe modernização do Estado sem a valorização e o desenvolvimento contínuo do servidor. Ao unir forças em redes nacionais, os Grupos de Trabalho do Consad deixam de ser ilhas de conhecimento para se tornarem um ecossistema integrado de inovação, capaz de elevar o padrão da administração pública em todo o Brasil — provando que a colaboração técnica é, antes de tudo, um compromisso com o cidadão.
Por Gabriel Albino Ponciano Nepomuceno, assessor técnico dos Grupos de Trabalho do Consad.
